O QUE APRENDI EM 2016

O ano foi extremamente positivo do ponto de vista da educação para a tolerância e para a resiliência. Costumamos reclamar do que nos aflige, mas não damos a devida atenção ao quanto isso nos ensina. Estamos saindo aos poucos da infância para a adolescência da democracia. E os adolescentes costumam ter seus dramas e suas espinhas. É assim mesmo. 

Olhando agora para o retrovisor, vêm à minha mente as seguintes lições:

 

Sobre o ódio - É fácil lançar uma agressão; mais difícil é tentar o convencimento. Mais complicado ainda é estar aberto a deixar-se convencer, ouvir o outro. Não precisamos mais de ódio. Pena que até entre nossos lideres e autoridades encontremos o estímulo à intolerância. Em lugar de apresentar contra-argumentos, opta-se por atacar a pessoa do adversário. É a miséria da argumentação. O ódio nas redes sociais não começou em 2016, mas este foi o ano em que mais pessoas começaram a se incomodar com sua frequência. 

 

Sobre a compaixão - O exemplo oposto veio do mundo do futebol, um ambiente em que comumente vemos a ira substituir o desporto e o entretenimento. A tragédia envolvendo o time da Chapecoense irmanou o Brasil numa corrente de solidariedade. Todos nos tornamos Chape. O mundo se tornou Chape. 

 

Sobre ler apenas as manchetes - A imprensa não é neutra, nem infalível. Não dá para formar opinião lendo apenas um jornal. Mas quando a “leitura” se resume à chamada da matéria, então a irresponsabilidade se converte em algo perigoso. No início do ano concedi uma entrevista à Folha sobre o impeachment. Fui duramente criticado por pessoas que simplesmente não leram o teor da matéria. E outros grupos que também não leram, ou fingiram não ler, comemoraram uma matéria em que eu lhes dirigia duras críticas. Não leiamos apenas os leads. Leiamos tudo, e não nos contentemos com uma só fonte. O assunto nos interessou a ponto de deter a nossa atenção? Pois então aproveitemos para ir bem mais fundo. Seremos mais respeitados quando quisermos emitir nosso ponto-de-vista. 

 

O vendedor de rua e o travesti - Luiz Carlos Ruas, o Índio, é a meu ver o maior herói brasileiro de 2016. Deu a vida para salvar seu semelhante. Ganhou do pastor que ascende na vida pregando o ódio e a discriminação contra os que possuem outra orientação política ou sexual. Qual dos dois se parece mais com o que Cristo pregava? 

 

A culpa é do outro - O corrupto do outro partido é mais criminoso que o do nosso? Não. A corrupção não tem partido. E nossa indignação facilmente se converte em hipocrisia. Então deveríamos nos unir pela mudança completa de um sistema político todo baseado no abuso do poder econômico. 

 

Sobre grandes mudanças - No ano em que deixei a magistratura para me dedicar à advocacia, descobri que mais pessoas gostariam de dar guinadas nas suas vidas. Mas é difícil abandonar o trilho. Vivi o ano mais feliz e interessante da minha estrada profissional. Fiz o que era certo para mim, e acho que me tornei mais útil para os outros. Livre das condições impostas aos juízes, pude emitir opinões mais livres. Rodei quase o Brasil inteiro para defender os interesses de clientes ou para ministrar cursos e palestras. Termino 2016 mais cansado do que em qualquer outro ano da minha vida. E feliz e realizado como nunca.

 

Sobre a transcendência do justo - 2016 foi o ano em que o Supremo Tribunal Federal viu afetada a confiança social na sua independência. O episódio envolvendo o presidente do Senado, Renan Calheiros, convida o Supremo Tribunal Federal a, em 2017, reafirmar a sua altivez, algo em que confio. Tendo sido juiz de direito por 19 anos, aprendi muito sobre os limites do Poder Judiciário, mas também sobre sua força. A justiça como valor, aliás, nunca perde. Ela pode ser ignorada, mas não derrotada. A vitória da injustiça é, por definição, provisória. 

 

Desejo a vocês um feliz 2017!!!

Marlon Reis.
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