Eduardo Cunha e o flagelo da democracia

A política é regida por pressupostos que lhe são peculiares. A legitimidade democrática está entre os mais elementares. Ela deriva de uma concepção constitucional fundante: não há validade na expressão política se esta não provém da manifestação de vontade dos cidadãos, captada direta ou indiretamente. 

Como regime, somos uma democracia; como forma de governo, uma República. Isso significa, por um lado, que o poder político provém do povo e que, por outro, a ninguém é dado a dele se apropriar.

A usurpação dos poderes públicos para a satisfação de vontades individuais e contrárias aos interesses do colégio de cidadãos implica em lesão grave e concomitante à democracia e à República. 

Essas antigas lições não foram compreendidas pelo Presidente da Câmara dos Deputados, que hoje não passa de um espectro angustiado pela expectativa do jazigo. A véspera do cárcere e do ocaso político são o seu tormento. 

Desnudo de legitimidade, lança mão de um ou outro mecanismos institucionais para retardar o inevitável. Aqui chantageia, ali falta da com a verdade. Apequenar o Parlamento parece pouco. É preciso também obstruir a ação do Judiciário dificultando a produção das provas. 

Esse momento se anunciava por meio da burla ao regimento e da tentativa de calar vozes críticas. Num golpe ilícito e ilegítimo defraudou a maioria formada contra as doações empresariais e o marco etário da imputabilidade penal. Quando publiquei meu livro “O Nobre Deputado” - um libelo contra os métodos que levam muitos como ele ao Parlamento - seu gesto foi o de clamar, mais alto que todos, pelo uso de instrumentos institucionais na tentativa de me calar ou intimidar. 

Não. Eduardo Cunha não é o homem forte que propagandeava ser. Moribundo de legitimidade, agora se compraz no uso, finalmente declarado, das armas que sempre manejou nos bastidores. Não há mais o que esconder. 

Só lhe resta descobrir que a democracia não é mais uma reserva patrimonial alheia da qual possa se apoderar. Desse trust ele não é mais um usufrutuário.

Márlon Reis.
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